Nelson Lidmann faz o estilo canastrão. Cigarrinho no canto da boca, o detetive falava de sua última experiência. Perdeu dois dedos nela.
- Ainda bem, só foram dois - exclama Lidmann.
Levou muitos tiros de um jovem que ele investigava. O rapaz morreu. Ele não contou os detalhes, fiquei sabendo que foi na mesma noite. Não perguntei nada mais sobre o crime, já que ele exibia a nova arma adquirida.
Digamos que o detetive não era a pessoa mais honesta que se encontra por aí. Bom coração, mas espírito de canalha. Chegou a trabalhar na polícia, mas foi afastado por um envolvimento suspeito.
- Sou brasileiro, meu rapaz. Honesto, mas brasileiro – honestamente contando suas trapaças.
Apesar de não esbanjar dinheiro, gasta muito em bebidas caras. O bar é recheado com uísques e licores. Trabalhando como detetive particular, Lidmann conseguiu uma boa renda. Comprou um apartamento luxuoso, pequeno, já que não conseguiu constituir família.
- Cheguei a ter algo chamado sentimento, mas ela me deixava todas as manhãs levando uma boa parte do meu dinheiro – desabafa.
O detetive jamais foi alguém importante. O momento máximo de sua vida ocorrera duas semanas atrás, justamente quando foi assunto na imprensa. O motivo não era o mais nobre, mas ele estava ali, era notícia. Seus dedos lhe renderam até uma foto no terceiro maior jornal da cidade.
- Meu sonho era trabalhar como Sherlock Holmes, mas óbvio que não deu - conforma-se .
Depois de algumas horas, ou melhor, depois de várias doses, falou a verdade sobre seus momentos marcantes da vida. Nada que chamasse atenção, até o momento que vi nele algo para ser dito, uma mágoa muito grande. Começou falando do casamento de seus amigos, os quais já estão separados.
- Tive medo de uma família, mas tenho um medo ainda maior e muito possível: morrer – falava o sujeito que havia perdido dois dedos após um pequeno tiroteio.
Estranho. Medo era a única coisa não parecia estar junto com o homem. Senti, por um momento, profunda decepção já que estava sendo tão humando, com um sentimento que até eu tinha. Então, por um momento parou de falar, fechou os olhos e sussurou:
- Tenho medo de morrer sem ter um filho.
O rosto ficou repleto de tristeza, mas lágrima não se visualizava. Até que veio a frase que eu esperava, que fazia questão de ouvir, já que estava decepcionado em não conhecer um canastrão convicto.
- Triste não deixar nenhum garoto tão viril quanto eu no mundo. Por sinal, você pode me deixar sozinho que duas garotas estão chegando para me fazer companhia – gentilmente, apesar das palavras ásperas, me dirigiu tal pedido.
Podia não ser verdade, mas não era mentira, por favor, não era. Ele era um detetive, ele era Nelson Lidmann. Espero ter conhecido um homem que você só viu na televisão.